Dormiu.
Para a alegria da sua coluna.
O braço quase caindo do corpo.
É a posição que toda mãe conhece.
De pé em frente ao berço, costas curvada, braço contornando a grade, a mão dando tapinhas no bumbum.
São longos minutos nesta relaxante posição.
Nos dias de sorte, ao invés de estar em pé contorcida, você consegue sentar. A mão passa entre as grades. O cotovelo já lateja, petrificado.
Quando você pensa que o bebê está quase dormindo, ele se distrai com um fiozinho do travesseiro, da coberta, sabe-se lá de onde esse fiapo apareceu!
Uma piscada mais longa e a esperança reina novamente no seu coração.
Respiro profundo… Olhos fechados!
No seu íntimo você grita: YES!
Há luz no fim do túnel!
Ah, sim, o túnel.
Tinha esquecido deste detalhe.
Para chegar até a luz, ainda é preciso escapar do túnel, digo, do quarto.
É quase que um sequestro.
A diferença é que o seu sequestrador tem menos de 1 metro de altura, usa fraldas, e é dono do seu coração.
Você olha para a porta e já sente até o cheirinho de Netflix, digo, de liberdade.
É uma fase crítica. Qualquer movimento brusco, jogada mal planejada e é game-over.
Você prende a respiração e vai com fé.
Tira o braço do berço.
O bebê dá uma resmungadinha.
Cataploft! Você se joga no chão.
Não pode ser vista. A regra é clara: Jamais cruze o olhar.
Não há tempo a perder, é preciso agir.
Engatinhando sorrateiramente você chega até a porta.
Se levanta em um perfeito agachamento ao contrário, que deixaria Pugliesi de queixo caído.
É a hora da verdade, você e a porta.
O trinco precisa ser movimentado com mãos de fada. Em câmera extra lenta você vai abrindo…
É agora! Toda mãe sabe exatamente o instante que a porta irá fazer barulho.
Você se antecipa, contraindo todos os músculos do corpo e apertando os olhos.
Tenho em mim que nessas horas até o coração para de bater.
Tá quase… Você se encolhe para tentar passa por uma pequena fresta. Precisa evitar a entrada de luz, barulho, poeira, brisa.
Só mais uma encolhida na barriga… Fecha a porta com um pouquinho de pressa mas ainda com delicadeza. Liberdade!
Já diria Leonardo DiCaprio em Titanic:
“I’m the king of the world!”


Autora: @a.maternidade – Rafaela Carvalho